A Gorjeta

‘Bom dia, o seu bilhete por favor.’

‘Bom dia, gostava de comprar um, ainda não tenho.’

‘Com certeza.’

À medida que o pica ia imprimindo o bilhete, balançando ao ritmo das movimentações do comboio, perguntou a Rui se ia de visita à cidade onde se dirigia. Ele disse-lhe que sim, que ia visitar a família.

 

‘Aqui tem o bilhete, são cinco euros e quarenta e seis, por favor.’

Estendeu-lhe a mão com sete euros e disse:

‘Guarde o troco para si, como agradecimento pela sua simpatia.’

‘Era o que mais faltava, estou a trabalhar para uma empresa pública. Guarde já isso.’ – a simpatia do pica parecia converter-se em severidade.

‘Estou a dar por gosto, gostei da forma como me abordou…’

‘Guarde o troco, já lhe disse! Não quero nem posso receber gorjetas.’

Partiu.

 

A boa disposição que caracterizou os breves momentos anteriores, transformara-se num ambiente hostil, de rejeição.

O orgulho de Rui ferveu. Quis compensar o homem, este não aceitou. Teria de encontrar forma de dar a volta à situação. Tudo passou de uma questão de simpatia e beneficência a uma questão de honra e orgulho.

Saiu do comboio convicto de que voltaria…

Um último olhar, através da janela, para a cara do pica. Ainda que depois da situação humilhante estivesse quase certo de que não se esqueceria do pica, quis reforçar a memória.

 

Estou? O telefone tocou, mas ninguém se acusou do outro lado da linha.

Era Rui. Não falou porque a sua intenção era apenas certificar-se que tinha conseguido o número correto. Pela voz, percebeu que sim.

Nos últimos três dias tinha ido à estação, à procura do pica. Não para o encontrar e abordar, mas para saber mais sobre ele.

Viu-o todos os dias. Nunca lhe dirigiu uma palavra.

Observava apenas os seus comportamentos e rotinas.

A morada era tudo o que realmente necessitava para ir entregar-lhe a gorjeta ao correio. Mas para conhecer a morada, o número de telefone podia ser um passo importante.

No terceiro dia, ao chegar à estação, viu, num banco em frente à linha, junto à porta da bilheteira, uma miúda: loira, roupa preta, com os seus dezoito ou dezanove anos.

Observou-a. Ela reparou que alguém ao seu lado a fixava demoradamente. Cruzou o olhar com aquele que a fitava de uma forma quase arrepiante. Bruscamente, desviou a cara, incomodada.

Ele aproveitou o cruzar de olhares e disse:

‘Tu, miúda, queres ganhar uns trocos?’

‘Sai daqui velho nojento, não sou nenhuma puta’

‘Nada disso, preciso de um favor simples…’

‘Já disse, não sou puta, não faço cá favores, nem com dinheiro, nem sem dinheiro’

O homem bufou, respirou fundo… não podia irritar-se com a rapariga, isso fá-lo-ia perder a oportunidade.

‘O que tenho para te pedir não tem nada a ver com isso. Deixa-me explicar e depois decides se aceitas ou não… Preciso do número de telefone daquele pica…’

‘O gordo?’

‘Não, aquele mais alto, que usa óculos.’

‘Sim, e como é suposto eu ir sacar-lhe o número?’

‘Bom, a ideia é a seguinte: tu, neste momento vais para a universidade, não é?’

‘Não tem nada que saber para onde vou, já tem sorte de lhe estar a dar atenção’

‘Pronto, pronto… não interessa para onde vais. Só precisas de fingir que perdeste o telemóvel e tens de ligar aos teus pais para os avisar disso. Depois, quando o pica, o alto, tem de ser o alto, te deixar ligar, ligas para o teu próprio número. Lembra-te de deixar o teu telemóvel no silêncio.’

‘Não sou burra, sei muito bem que o meu tem de estar no silêncio.’

‘Estava só a relembrar… Quando ligares, finges uma pequena chamada, e desligas. Vens ter comigo e mostras-me o número do homem.’

‘E para que queres tu esse número?’

‘Já estás tu também a entrar no campo pessoal. Eu não faço perguntas pessoais sobre ti, por isso também não espero que as faças sobre mim.’

‘Justo. Quanto ganho com isso?’

‘Vinte’

A rapariga riu-se com desprezo.

‘Não faço isso por menos de quarenta’

O homem franziu o sobreolho, a cara avermelhava-se de irritação, mas respirou fundo novamente. Estava perto de conseguir o que queria, bastava concordar com os termos do negócio.

‘Está bem, mas rápido, antes que mude de ideias.’

‘Mostra-me que tens aí quarenta euros.’

O homem suspirou de impaciência… Tirou a carteira do bolso, mostrou as notas.

‘Estão aí mais de cem euros…’

‘O acordo são quarenta, não abuses.’

A rapariga olhou-o com desprezo e dirigiu-se ao pica – o alto.

‘Boa tarde, desculpe, perdi o meu telemóvel, será que posso utilizar o seu para avisar os meus pais do sucedido? Estou prestes a ir para a faculdade e não quero que eles fiquem preocupados por eu não atender as chamadas’.

‘Boa tarde, menina. Claro que sim, ora essa. Peço-lhe é que seja rápida, que o comboio parte daqui a poucos minutos.’

Digitou o seu número, deixou tocar duas vezes e disse:

‘Sim mãe, olá. Sim, está tudo bem. Pedi ao senhor aqui do comboio que me deixasse ligar-te porque perdi o meu telemóvel….

Sim, eu sei, eu vou encontrá-lo, deve ter ficado na residência’ – revirou os olhos e deu um sorriso de embaraço para o pica.

Este sorriu de volta.

‘Quando chegar digo-te qualquer coisa novamente. Beijos.’

Desligou e agradeceu.

‘Ora essa, o que importa é que já deixou os seus pais mais descansados. Olhe que eu sou pai de duas gémeas e sei bem o que é ter o coração nas mãos.’

A rapariga seguiu novamente para o banco onde tinha sido abordada. Sentava-se agora Rui, enquanto aguardava que a miúda executasse o plano.

‘Está feito! Os meus quarenta euros?’

Tirou as notas do bolso, que já se encontravam fora da carteira desde que lhas tinha mostrado.

‘Toma. Mostra-me lá o número.’

Ela mostrou-lhe o telemóvel e ele apontou os dígitos.

O comboio onde o pica seguia, partiu, inundando a estação com o seu ruído metálico.

 

‘Obrigado, foste uma grande ajuda. Por acaso… ele não te disse o nome?’

‘Não, só começou para lá a falar das filhas, que são gémeas.’

Os olhos do homem brilharam.

‘Gémeas… Ok, obrigado mais uma vez.’

 

O próximo passo seria descobrir onde morava o pica, só assim poderia entregar-lhe a gorjeta. A informação sobre as gémeas era muito valiosa: podia utilizá-la para perguntar na zona de residência do pica quem conhecia uma família com duas gémeas.

O plano passaria por seguir o pica. Se o conseguisse seguir até casa, sorte a sua; se não conseguisse, pelo menos que o seguisse até uma zona próxima, onde já fosse possível alguém das redondezas conhecer essa família.

Mas havia outro obstáculo ao plano: o homem não tinha carta de condução, nem carro. Não podia pedir a ninguém que lhe desse boleia, porque ninguém iria concordar em seguir um carro.

A opção, talvez a única, seria entrar no mesmo comboio que o funcionário e aguardar até que este terminasse o turno e saísse numa estação. Assim, estaria pelo menos um pouco mais próximo de saber onde este vive. A partir dessa estação, começavam as perguntas: em cafés, bares, restaurantes, minimercados, bancos de rua… o que fosse preciso, até encontrar a casa que tanto ansiava descobrir.

 

Dois dias depois, cumpriu o plano. O pica saiu numa estação velha e pouco movimentada. Rui seguiu-o até ao parque de estacionamento onde o funcionário entrou no carro e desapareceu na curva ao fundo da rua.

Rui seguiu na mesma direção, mas a pé. Começaria a busca por alguém que o ajudasse.

Perguntou numa mercearia, sem sorte. Num restaurante, nem o deixaram falar, estavam atarefados. Num quiosque, insultaram-no por ele não ter dito boa tarde e não lhe responderam a mais nada.

Prosseguiu a sua viagem, até que mais à frente viu um café.

O toldo lia “Café A Tasca”, ainda cá fora ouvia já os barulhos altos e confusos no interior: risos e gritos de euforia.

Entrou.

 

‘Eu bebo há muito mais tempo que tu’

‘Deixa-me rir pah. Eu desde que tinha doze anos que bebia copos de aguardente com o meu pai pela manhã.’

Os dois homens barrigudos, de camisas tingidas de vinho e mal abotoadas, debruçavam-se sobre o balcão. Dois copos de vinho tinto à frente de cada um.

O bar tinha pouca iluminação, os cantos eram escuros, distinguiam-se apenas quadros com desenhos de motas nas paredes, uma montra com várias bebidas espirituosas e uma névoa de fumo dos cigarros que os poucos presentes fumavam.

Um deles tinha bigode, o outro não. À distância a que o homem se encontrava, o bigode parecia ser a única coisa que os distinguia.

Aparentemente discutiam quem aguentava beber mais sem cair para o lado.

Mas o debate parecia ter passado já a outros níveis: deixou de ser uma questão discutida intelectualmente para agora se disputar com empurrões e insultos.

‘Ó meu javali, tu com dois copitos de vinho já estás a rastejar pelo chão e a vomitar-te todo.’

O homem do bigode não tolerou o insulto e deu-lhe uma pancada, de mão cerrada, no alto da cabeça.

O outro estremeceu, e ainda antes de cair inanimado no chão, retribuiu-lhe a agressão com um soco na testa. O homem do bigode apenas sangrava do sobrolho, devido ao soco.

Cuidadosamente, Rui chegou-se ao balcão. Pousou os cotovelos no tampo, inclinou-se para o empregado, de modo a poder falar baixo, sem dar muito nas vistas. O empregado olhou-o… aproximou-se.

‘Boas, conhece algumas gémeas aqui na zona?’

O empregado enrugou o nariz. Sem lhe responder, afastou-se. Dirigia-se àquele que parecia ser o patrão: um homem mais velho, barrigudo, e como não podia faltar, um bigode (compensava abaixo do nariz, a quantidade de pelos que lhe faltavam no alto da cabeça).

O empregado sussurrou-lhe algo ao ouvido, e ao mesmo tempo, ambos levantaram os olhos e encararam o visitante.

O empregado levantou a palma da mão aberta a pedir a Rui que aguardasse. O patrão acabou de secar o copo que tinha na mão, pousou-o na prateleira atrás de si. Pegou numa garrafa de Whiskey, umas prateleiras mais acima, voltou-se para o balcão, encarando o cliente que lhe fizera o pedido antes de ser interrompido pelo empregado. Pousou a garrafa no balcão, retirou dois copos da mesma prateleira onde tinha deixado o outro ainda meio húmido, e encheu os dois. Um deles, deixou-o em frente ao cliente que já estendia a mão para o receber, o outro, arrastou-o pelo balcão, enquanto caminhava na direção de Rui.

O copo parou, salpicando bebida para o balcão. Parou também o patrão.

‘Ora amigo, vem só fazer perguntas ou bebe também um copo?’

Rui nunca gostou de Whiskey, mas teria de aceitar o copo se queria travar amizades com o patrão que lhe podia dar boas informações.

‘Bebo claro.’

Pegou o copo e de um só trago despejou todo o Whiskey garganta abaixo. Fechou bem a boca, respirou fundo enquanto cerrava os olhos… aguentou a bebida no estômago.

Depois falou:

‘Como disse ao seu empregado, gostava de saber se conhecem umas gémeas que vivem aqui na zona?’

‘Pois, o moço disse-me. Conheço duas: umas novas e outras velhas. Quais é que anda à procura?’

‘Pois…, sinceramente, não sei. Só sei que o pai delas trabalha nos comboios.’

‘Ó pá, de empregos não sei. Sabe descrever-me o homem?’

‘É alto, tem uns óculos pretos e o cabelo preto também.’

‘Assim não é fácil, cabelo preto e óculos pretos é o que não falta por aí nas cabeças das pessoas’ – o homem sorriu, e continuou:

‘Relativamente às filhas, as mais velhas, acho que nunca lhes vi o pai, por isso não sei qual a aparência. As mais novas, só vi o homem por cá uma vez, penso que há dois ou três anos, veio com uns amigos… – fez uma pausa para pensar – esse de facto tinha óculos. Não me lembro da cor do cabelo, nem se era alto ou baixo, mas estou a recordar-me dos óculos.

Sei que ele tem duas filhas gémeas porque elas apareceram aí a chamar por ele.’

‘Ah, então é esse, de certeza. Sabe onde ele mora?’

‘Ui… isso não sei. Só o vi mesmo dessa vez’.

‘Certo… de qualquer forma agradeço a ajuda.’

Deixou umas moedas em cima do balcão, cujo valor cobria a dívida da bebida e ainda sobrava.

‘Guarde o troco. E mais uma vez obrigado.’ – disse Rui dirigindo-se já para a porta de saída.

‘Desculpe.’ – o patrão chamou-o de novo.

‘Lembrei-me… está ali o senhor Otávio, um cliente de sempre, conhece toda a gente aqui na aldeia. Decerto que o consegue ajudar.’ – apontava um velho que lia um jornal, de cabelo branco, curto e bem arranjado num canto um pouco escuro da tasca.

Rui agradeceu novamente e foi tentar a sua sorte com o velho.

‘Peço desculpa incomodar, vim a mando do dono da tasca, precisava de lhe pedir uma informação.’

‘Ó meu amigo, veio pedir-me um tostão, mas está com pouca sorte, não tenho cá nada. Só trouxe à conta para o café.’

‘Não, não. Vim… pedir… informação’ – reforçou quando se apercebeu da fraca audição do velho.

O velho riu-se. Rui sorriu, confuso…

O velho disse: ‘Eu percebi à primeira, mas um dos privilégios da minha idade é fingir que não ouço quando o assunto não me convém. Estava só a meter-me contigo. Qual é a informação que precisas?’

‘Queria perguntar-lhe se sabe onde vive o pai de umas gémeas, umas miuditas. O homem trabalha nos comboios.’

O velho desviou os olhos para o teto, como se tivesse subitamente avistado uma aranha. Rui seguiu o gesto do velho acabando por fitar também o teto, mas logo se apercebeu que o velho estava só pensativo.

‘Sei perfeitamente de quem fala’ – os olhos do velho estavam ainda colados ao teto – ‘estou só a tentar lembrar-me de onde vive’.

Rui permaneceu em silêncio, observando-o…

‘Ah’ – disse o velho como se acordasse de um sonho – ‘perto da livraria.

Para chegar à livraria só tem de sair desta porta, virar à direita e subir a rua, sempre a seguir a estrada de paralelo. Mais cedo ou mais tarde irá ver uma fachada dourada com o nome “Ler para Crer”, chegou.

Quando estiver de frente para a livraria segue o caminho do lado direito, uma subida; contorna o edifício e atrás verá uma casa, feita de pedra castanha-clara, com um jardim largo e bem arranjado. A casa não é muito grande, mas vai perceber logo de que casa falo quando a vir.’

Enquanto o velho falava, Rui anotou o que pode num papel:

À direita sempre a subir até à livraria

Ler para Crer

Direita livraria, subir

Casa com jardim, castanha-clara

 

‘Agradeço-lhe imenso a ajuda. Posso pagar pelo seu café?’

‘Ora essa, não é preciso nada disso. Além do mais, o café já está pago. Foi um prazer ajudar.

Mas já agora, por curiosidade, para que quer saber a morada do homem?’ – O velho inclinou o corpo para a frente, como se Rui lhe estivesse prestes a contar um segredo.

‘Ah, nada de mais, quero só agradecer-lhe por um bom gesto que teve comigo no comboio.’

Disse a verdade.

‘Bem, se se deu a tanto trabalho de o procurar, o gesto deve ter sido mesmo importante para si’

‘E foi… Já agora, sabe o nome do pica?’

‘Isso não sei…’

‘Obrigado na mesma…’

Rui deu um aceno de cabeça ao dono do café e partiu.

 

À saída, consultou o papel, como se se tivesse esquecido para onde tinha de ir, mas sabia bem: virar à direita e andar até à livraria.

Andou dez minutos.

Quando já pensava ter-se perdido, viu a fachada da loja de livros.

Ao alcançar, por fim, a livraria, seguiu o caminho da direita, subiu um pouco mais e encontrou a casa.

Era de facto pequena, mas o tamanho do jardim parecia compensar a falta de espaço interior. Deu a volta à casa, de modo a perceber se estava alguém no interior. Tudo parecia calmo, silencioso.

Os moradores estavam, aparentemente, ausentes. Apesar do pica ter saído da estação de carro, devia ainda ter ido a algum lugar antes de vir para casa.

Regressou à frente da casa, chegou perto da caixa do correio e retirou a carteira do bolso. Se no comboio tentou dar ao pica um euro e cinquenta e quatro de gorjeta, desta vez, para vencer o jogo do orgulho, teria de jogar em grande. Tirou uma nota de dez euros, colocou-a num envelope que já trazia de casa, com um bilhete escrito no interior, selou-o e colocou-o na caixa.

 

Ao chegar a casa, como é de costume, o pica passou pela caixa do correio, a saber que correspondência lhe chegou nesse dia:

Conta da luz, conta das telecomunicações, publicidades de supermercados e… um envelope que dizia ‘Para o pica’.

Entrou em casa, pousou toda a correspondência na bancada da cozinha – coisa que irritava a sua mulher, mas não estando ela ainda em casa, podia dar-se a este luxo –, exceto o envelope.

Sentou-se no seu cadeirão na sala, abriu o envelope, viu a nota de dez euros, franziu a testa em desconfiança, tirou o bilhete e leu:

Meu bom senhor,

Chamo-me Rui, sou o rapaz que há 5 dias lhe tentou dar uma gorjeta, mas que o senhor rejeitou.

Contudo, acredito que as pessoas devem ser recompensadas pelo bem que fazem aos outros. Sei que não o fez por dinheiro, mas acredito que o dinheiro possa ser uma forma de recompensar o gesto.

Sem mais assunto me despeço, obrigado.

O pica colocou o dinheiro e a carta novamente no envelope. Frustrado, massajou as têmporas enquanto contemplava o envelope. Soltou um sorriso de desprezo, e no momento que ia pousá-lo ao seu lado, no braço da poltrona, o telefone tocou.

‘Estou sim.’

‘Olá, daqui é o Rui, gostava de saber se já recebeu a minha carta.’

Neste momento, o seu altruísmo revelou-se questionável. Procurava claramente os louros, o mérito perante aquela situação.

‘Desculpe lá, como é que o senhor tem o meu número?’

‘Isso não é importante, tive um gesto de bondade para consigo, gostou?’

‘Ah é importante sim senhor, como raio tem o meu número? E para que raio esta gorjeta, já lhe disse que não posso nem quero aceitar nada disto.’

‘Foi um pequeno gesto pelo seu bom atendimento, não é nenhum crime ou é?’

O pica suspirou, enraivecido, certo de que trocava palavras com um louco.

‘Eu não quero este dinheiro. Vou trabalhar amanhã, aguarde por mim na paragem onde saiu da outra vez que eu devolvo-lhe a nota.’

‘Caro pica…’

‘Trate-me por Ferreira!’

‘Ferreira… Caro Ferreira, não me vou encontrar consigo, quero que guarde a gorjeta.’

‘Desculpe lá amigo, mas esta conversa já me está a chatear o juízo. Eu não quero cá caridades e nem o conheço de lado nenhum. Se não se vai encontrar comigo, então vou ter de queimar isto.’

Rui espreitou pela janela da sala, a lareira estava apagada.

‘Com licença.’ – ouviu o pica dizer antes da ligação cair.

Deixou-se observar Ferreira, que agora estava de pé, perto da lareira. Foi a outra divisão, e quando regressou trazia na mão uma caixa de fósforos.

Rui correu à volta da casa. Deixar que Ferreira queimasse a carta era perder esta batalha. Era como se com a carta, ardesse também o seu orgulho, o seu altruísmo e algo mais…

Ferreira acendeu o fósforo e começou a queimar uma ponta do envelope. Ouviu um bater incessante na porta, soava urgente. Apagou o fósforo e pousou o envelope, que ardeu um pouco mais, mas a chama logo se desvaneceu.

Abriu a porta. Reconheceu o homem.

‘Ai o caraças pah, o senhor só pode estar a gozar comigo. Como é que sabe onde é que eu moro? E que merda está aqui a fazer?’

‘Posso entrar?’ – questionou Rui num tom de voz entristecido.

Ferreira deu uma gargalhada irónica.

‘Ah! Você tem cá uma lata. Claro que não pode entrar! Vá-se mas é embora!’

‘Deixe-me explicar…’

‘Vá embora!’ – gritou Ferreira interrompendo Rui.

‘VOCÊ SALVOU-ME A VIDA!!!’ – gritou Rui por cima do grito de Ferreira.

‘Salvei-lhe o quê, homem?’ – o tom de Ferreira era agora moderado.

‘O gesto pelo qual eu o quero recompensar não foi a boa conversa no comboio. Quero dizer, foi, mas não a daquele dia.’

Ferreira abriu mais a porta, arredando-se para abrir caminho a Rui.

‘Entre, ali em frente é a sala.’

Sentaram-se: Rui no sofá, junto à lareira, e Ferreira na poltrona.

Ferreira, ainda atordoado, fez silêncio e pousou os olhos gentilmente em Rui, aguardando…

‘Senhor Ferreira…’

‘Trate-me por Eduardo.’ – rendeu-se enfim.

‘Senhor Eduardo, uma vez, há cerca de um ano, numa mesma situação, encontrámo-nos no comboio, a única diferença foi que eu já tinha bilhete, e não ia para a cidade dos meus pais, mas vinha de lá. Vinha decidido a que quando chegasse, tiraria a minha própria vida…’

Ferreira inclinou-se na direção de Rui, prestando-lhe agora uma atenção incondicional.

‘E como é que eu o impedi? Como é que eu fiz com que mudasse de ideias?’ – questionou.

Rui suspirou, olhos molhados: um reflexo da profunda gratidão que tinha para com Eduardo.

‘O senhor Eduardo reparou que eu tremia muito, que estava visivelmente ansioso. Perguntou-me se estava tudo bem, conversou um pouco comigo e quando se foi embora, sem aviso, voltou com um café para mim, que nem é permitido.’

‘Foi isso?’ – questionou Ferreira com um ar calmo e um pouco surpreendido. Não queria desvalorizar o ato, uma vez que o pequeno gesto tinha sido o suficiente para salvar a vida deste homem, mas estava intrigado exatamente por isso: por um ato tão simples e do qual já nem guardava memória ter sido suficiente para salvar a vida a alguém.

‘Foi isso. Esse gesto, de alguma maneira, disse-me que eu era importante, que alguém se preocupava comigo. E desde então, de mês a mês, faço questão de andar no comboio onde o Eduardo trabalha. Disse-lhe no outro dia que ia de visita à família, mas a verdade é que nunca mais os visitei desde o dia em que você me salvou.

Nunca soube como o podia recompensar.

E apesar de não achar que o dinheiro seja uma grande mais-valia em comparação com o que fez por mim, achei que seria uma forma de mostrar apreço pelo seu gesto.’

Eduardo olhou-o com um ar compassivo.

‘Eu aceito os dez euros se o Rui hoje ficar para jantar.’