Cuidado com a Aparência

Há um homem que sempre que espera convidados em sua casa lava os seus dois carros. Vive numa espécie de obsessão por uma boa aparência.

Sejam as visitas família, amigos, ou recém-conhecidos, os carros têm de estar a brilhar. Estão estacionados no pequeno espaço logo na frente da casa, bem à vista, não pode por isso descuidar-se. Será alvo de observações e comentários depreciativos.
Assim o pensa…

Os carros são para si um reflexo da sua disciplina e organização. Ao estarem sujos revelam pouco brio, desorganização e falta de responsabilidade. E isso não podem achar os outros dele.

Verdade é que tantas vezes tem visitas em casa, igual é o número de vezes que lava os carros; mas nunca uma alma, uma que fosse, comentou a limpeza dos carros, nem mesmo os carros em si.
Passam-lhes sempre as gentes ao lado, como se não estivessem lá.

A matriarca da casa já anda com o homem pelos cabelos. Gasta-se imensa água, ele não ajuda nos preparativos do almoço porque está a lavar os carros e, no fundo, ela sabe que ele só faz isto porque se preocupa demasiado com o que os outros pensam. Não por brio pessoal.

Nas últimas semanas a mulher tem feito de tudo para quebrar o padrão. Insiste todos os dias para que ele tente uma vez, uma vez apenas, não lavar os carros, e verá que ninguém se importa.

Este domingo têm visitas: dois casais amigos. Contra tudo aquilo em que acredita, a pedido da mulher persistente, e ainda com os nervos à flor da pele, a ansiedade a bombear-lhe o coração, os carros não estão lavados. Sucumbiu à experiência que a mulher tão veemente lhe propôs.

Nem por isso ajudou com o almoço. Foi dar uma volta de bicicleta, a sua forma preferida de libertar as preocupações: andar pelas matas e pinhais a alta velocidade, dando saltos e quedas exímias.

Regressa da volta, encosta a bicicleta ao muro lateral da casa. Apressa-se para o banho. Não lavou os carros, mas pelo menos ele tem de estar apresentável.

 

Como esperado pela mulher, as visitas passam pelos carros sem sequer os olhar, indiferentes perante a sujidade que apesar de tudo era mínima. O almoço decorre com toda a tranquilidade. Regado de vinho e boa disposição, sem comentários relativos aos carros (como esperado pela mulher, sempre desconfiado e expectante o marido).

Terminado o encontro, despedem-se à porta, com um abraço e um até para a semana.
Ao fechar a porta, para seu desgosto, ouve uma das suas amigas comentar para o marido:
‘Ui, esta bicicleta já merecia uma limpeza’.