Conversa de Circunstância

Estou no centro de saúde. Quatro cadeiras, três ocupadas, uma delas por mim, e uma a aguardar ocupação.

Dois homens, agora sentados, reencontram-se após vários meses sem se verem:
‘Tudo bem?’
‘Está tudo.’
‘Tudo bem nunca está, se estivesse não estaríamos aqui.’

Alguns risos envergonhados partilhados pelos dois. O que contou a piada, um falso humorista, riu-se de orgulho. O outro riu-se por educação. O comentário já deu pano para mangas: agora discutem-se as borbulhas na perna que trouxeram cá o homem que se riu por educação. Talvez se tenha rido por interesse, não por educação. Para poder falar de si, queixar-se da sua sorte. Pelo menos assim o faz neste momento, só ele fala. Ganhou terreno e toma já conta da conversa.

Rapidamente morre, no entanto, o motivo de conversação. Acontece o momento constrangedor em que ambos dizem umas últimas palavras sem interesse ou propósito de modo a fechar o assunto. Algum silêncio…

Outro homem entra, reconhece o falso humorista, e diz-lhe:
‘Olha, estás por aqui.’
‘Tem que ser.’
‘Está tudo bem?’
‘Está… Quer dizer. Tudo bem nunca está, se estivesse não estaríamos aqui.’

Qual não é o meu espanto: não satisfeito, repetiu a mesma fala, precisamente as mesmas palavras, mas desta vez dirigiu-as a alguém diferente.

Repetiu a mesma piada, como se aquele com quem a estreou não permanecesse ainda a dois metros de si. Como se a conversa que teve com o senhor que se riu por educação (ou por interesse) tivesse sido longa e rica o suficiente para que esse se tenha esquecido da pequena gracinha. Não o foi… Não se esqueceu…

Sem pudor, reciclou a expressão. Talvez porque anteriormente tenha resultado, tenha puxado mais conversa e matado o constrangimento inicial de reencontro entre duas pessoas que pouco ou nada têm para dizer um ao outro.

´Por acaso, se deus quiser está tudo bem. Venho só pedir umas análises para ver se a máquina está a funcionar como deve ser.’
‘Pois… também é preciso.’

Saiu-lhe o tiro pela culatra. Manifestou-se a prova de que a expressão não tinha de ser repetida só porque resultou a primeira vez. Ainda assim, apesar deste fracasso, suspeito que se me demorasse mais uns minutos e aguardasse mais umas entradas, ouviria a mesma piada novamente. A mesma fala, usada e abusada.

Uns sorrisos amarelos precederam o silêncio que se instalou de imediato… o retorno da aflição, do incómodo, do desconforto.

Encarou novamente aquele com quem conversara primeiro, sem nenhuma aparência de contrição pela situação da piada reaproveitada. Disse-lhe:
‘Eu já tive umas borbulhas dessas também. Deu-me mais nos braços, mas também nas pernas. Isso é bicho do pinhal com certeza.’

Faz diagnósticos que nem o médico. Se soubéssemos disso de antemão, não estaríamos aqui, estaríamos em sua casa, que ele logo nos esclarecia a causas das nossas doenças.

Além da piada, reutilizou o tema de discussão, o das borbulhas. Desta vez, o reaproveitamento resultou. Desenrola-se agora uma conversa mais estável, para durar…

Próximo paciente chamado ao consultório. Terminou o espetáculo para mim…