O Barulho do Lado de Lá da Parede

Aquele barulho outra vez…

A cada martelada na parede, saltava-me também o coração. Como se de lá do seu lugar me martelasse o interior do peito ao mesmo ritmo das pancadas exteriores. O mito era real. Seria?

A cada novo buraco desenhado na parede, soltavam-se memórias na minha mente. Todas as fases da minha vida que tinham que ver com este mito propagado pela minha mãe, aquela bruxa de merda, reavivavam-se na minha cabeça, como fantoches dançantes, a fazer pouco de mim.

A bruxa contava-me que havia uma passagem secreta, do lado de lá, que levava a uma cela, uma prisão para crianças. Eu acreditava, claro, o preço a pagar por ignorar tal possibilidade seria demasiado alto. Eu era pau mandado. Ainda me lembro daquele abutre, aquela velha porcalhona, aquela puta, a dizer-me:

‘Costas direitas, camisa para dentro das calças, olhos sempre na direção do chão’. Foda-se para os domingos, com o seu ritual de ir à missa, e foda-se para as velhas beatas, coscuvilheiras, que nenhuma sarna têm para se coçarem, sempre a comentar o viver dos outros, parando só para tossir e escarrar para os lenços nojentos que carregam sempre nos bolsos dos casacos.

Acreditava eu na cela por medo. Foda-se para a minha mãe que me levava à missa, à escola e me obrigava a limpar a casa todos os dias.

Depois deixei de acreditar que a passagem existia de todo. Era já crescido e capaz o bastante para me aguentar se a velha decidisse mostrar-me realmente a tão falada cela, trancar-me nela e verdascar-me as costas. Numa tarde disse-lhe que não acreditava em nenhuma passagem secreta. Verdascou-me as costas, mas não me mostrou a famosa cela.

Ultimamente, já adulto, acreditei, por ouvir barulhos do outro lado da parede, desacreditei, quando os barulhos descansaram por vários dias, mas chegou a hora de saber com certezas. É desta que a velha se deixa de merdas, descubro-lhe a careca hoje. Raio da velha, sentada e inútil, numa cadeira com cheiro a mofo naquele lar pobre, barato e putrefacto, tão longe, e ainda me assombra sem saber. Pesada a minha cruz, calhar-me mãe assim.

Parti o último tijolo necessário para me caber na passagem o corpo. O buraco era escuro, nada se via ainda do outro lado, apenas uma claridade se fazia notar. Apoiei as mãos, uma de cada lado do buraco, avancei primeiro a cabeça para dentro, passei o resto do corpo…. AHHHHHH, gritei, FODA-SE!!! Claro… o casal deprimente, os velhos repugnantes, vizinhos a quem sempre olhei de lado, sentavam-se à mesa, a jantar, embrulhados num clima de romance… angustiante! Os velhos têm de perceber que não têm mais idade para estas porcalhices do amor.

Pararam de comer, olhavam-me, pasmados. Pousaram os talheres, e mais não sei, voltei-lhes as costas, enfiei-me pelo buraco e regressei a casa.

Deitei-me na cama a pensar como raio nunca me tinha ocorrido que o outro lado só podia ser já parte da casa dos vizinhos. Aquelas vozes rugosas, cansadas e graves que me inundavam a casa vindas da parede, nunca poderiam vir de crianças presas em celas. Claro, tinham de ser velhos nojentos.

Puta que pariu a minha mãe, moribunda naquela cadeira, nunca pagará os danos feitos na parede.