Do Caixão à Cova

Um ligeiro encosto acidental foi o suficiente para que o caixão caísse do suporte com rodas que o segurava. O corpo do defunto lançado fora do caixão, caiu dentro da sepultura, de cara voltada para baixo e um braço para cima, parecendo esforçar-se por subir novamente o buraco que o continha. Mas ficara-se, silencioso, imóvel, esquecido de si.

O irmão do defunto, o responsável pelo incidente, além de triste, estava agora também embaraçado.

O constrangimento alastrou-se a todos os presentes. A mulher do defunto e a sua filha de trinta e nove anos, que se seguravam mutuamente por um braço, abriam a boca sincronicamente, estarrecidas com a situação. O filho já quarentão, esbugalhava os olhos à vista do corpo que um dia fora seu pai, caído na cova, tão indigno. O padre, aflito, com a pressa, escondia a irritação. Estaria Deus a pôr à prova a sua paciência? Não podia ser… ou podia?

Os coveiros, continham o riso, não por desrespeito, mas porque a situação, se não fosse tão trágica, seria caricata. O homem da funerária olhava com atenção o caixão, percebendo se tinha marcas ou fissuras. Estava intacto. Voltou a colocá-lo na armação após limpar as manchas que a terra lhe tinha deixado.

Detiveram-se todos durante alguns momentos, cada um deles percorrendo com o olhar os demais. Afogados no silêncio que procede às tragédias, incertos quanto às medidas a tomar.

Uma primeira voz rompeu o mutismo, desembaraçando o embaraço:

‘Ora que isto hein? Calhando o melhor era… era fechar-se já o buraco, para não sucederem mais azares que aumentem o…. o sofrimento e ainda alonguem a despedida.’ O irmão do morto, que falara, tornara-se o alvo de todos os olhares que outrora vagueavam sem destino pelo cemitério. Fechar já o buraco seria talvez o ideal, o assunto ficava arrumado e o caixão, pago por si, seria devolvido. Teria o dinheiro de volta.

Ao ouvir o tio, a filha do falecido deixou sair um grito choroso, de choque, que foi de seguida cessado pela intervenção da sua mãe, a mulher do homem caído ao buraco.

‘Ora essa, era o que mais faltava’ – o tom de indignação combinado com fúria, percorreu os corpos dos que a escutavam, como um arrepio que se verte espinha abaixo. ‘O meu marido tinha lá os seus defeitos, ai se os tinha, Deus me perdoe, mas não merece isto, que tivesse sido castigado em vida o apoiava eu, mas na morte a dignidade é tudo o que resta. Vai buscar-se o corpo e ponto final’.

A filha, ainda agarrada ao braço da progenitora, como fazia em busca de conforto quando era criança, nada disse, mas as expressões que soltou acompanhando o discurso da mãe, deixavam claro que partilhava da mesma opinião.

Os coveiros, que já relaxavam após o discurso do irmão do morto, satisfeitos por não terem de cumprir a tarefa de resgatar o cadáver, sentiram, com as palavras da mulher, novamente a tensão que precede a ação. Descontentes, preparavam-se já para descer à cova e fazer o trabalho sujo que mais ninguém faria por eles. Interromperam novamente o seu movimento à voz do padre, que no meio da sua pressa, fez uso da legitimidade que as suas vestes lhe concediam. Dirigiu-se aos presentes dizendo:

‘Caros irmãos e irmãs, a situação é realmente digna de transtorno, é desagradável, sim. Mas permitam-me que vos recorde que infindáveis são os desígnios de Deus, nosso Pai, que nada faz por acaso, que nos põe à prova e nos ensina com o seu amor.  Não diz Jesus, em Mateus, “Não acumulem para vocês tesouros da terra… mas acumulem tesouros do céu”? Não nos ensina também, nas palavras de João que “Tudo o que há no mundo – a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens – não provém do Pai, mas do mundo.” Pois lembremo-nos que o mais importante é o corpo testemunhar a cerimónia, para ser consagrada a alma. Menos relevância têm os adereços que o enfeitam’

O próprio pároco impressionara-se com a lucidez do seu discurso, que embora motivado pela impaciência, parecia inspirado pelo altíssimo. Juntara-se o útil ao agradável.

A mulher e a filha rosnaram à escuta do discurso do padre. O discurso era belo, mas poderia um padre realmente deixar isto acontecer?!

O agente funerário assistia e suava por todos os poros. Atravessava um período difícil em termos económicos, ultimamente morria-se pouco naquela aldeia. Vender o caixão era crucial para assegurar um maior conforto naquele mês.

‘Oh, vão agora deixar o pobre homem assim, tão indigno, compram-lhe um belo caixão, que além de o confortar também o honra, e agora mandam-no para a cova como um animal?’. Inseguro quanto à suficiência daquelas palavras, olhou a mulher e a filha do falecido e encontrou nelas o seu trunfo:

‘Senhor padre, o seu discurso é encantador, mas veja-se o transtorno notório nestas duas caras. Não basta já o sofrimento da perda? Não merecem, ao menos, despedir-se deste homem com dignidade?’

A pergunta retórica permitiu ao pároco manter o silêncio. A sua postura firme e a expressão carrancuda provavam que a sua opinião não se alterara com a conversa do homem da funerária.

Os coveiros intervieram, recordados de que a tarefa de descer ao buraco e carregar o corpo morto seria sua. A modos rudes assumiram uma posição, um deles falou: ‘Oh meus senhores desculpem lá não levem a mal.  Mas quer dizer, está-se aqui há não sei quanto tempo a discutir isto, daqui a uns meses não há já caixão e não há já corpo. Com caixote ou sem caixote vai dar tudo ao mesmo, a terra há de comer tudo em pouco tempo. Deixemos as coisas assim, apressa-se o processo natural e ainda se poupa o caixão’.

Novamente um silencio demorado se instalou. Ninguém apreciou o comentário do coveiro, mas o desagrado não era suficiente para lhe dar conversa. Ignorou-se. Os presentes conservavam-se ali, no impasse do confronto das vontades diversas. A indecisão mantinha-se enquanto a carcaça humana aguardava sem impaciência o seu destino.

‘Vamos a ver, se calhar estamos todos a exagerar nas nossas reações’ – o filho temperou o ambiente. ‘Eu compreendo a tua preocupação mãe, mas o senhor padre tem razão, não são os bens materiais que contam, o pai, se Deus quiser está já salvo’ – o padre elevou a sobrancelha em sinal de desconfiança – ‘aqui as carnes já pouco importam. Agora, enquanto patriarca da família, dito que se feche a cova e se deixe o homem descansar de vez’.

A tomada de decisão conferia-lhe uma posição de soberania sobre a mãe e a irmã, era ele agora o patriarca da família, vivia ainda em casa da mãe e mesmo com a irmã fora, a autoridade sobre a família pertencia-lhe.

Fecha-se o buraco, as mulheres choram, o da funerária empurra, enraivecido, o caixão de volta para a carrinha, o padre já vai longe, com passo apressado, o filho e o tio partem indiferentes e os coveiros estão satisfeitos.

Fez-se a vontade dos homens.