Indignado

Havia, em tempos, um senhor muito indignado. Vivia indignado com a sua realidade, nada lhe convinha, ele também não se convinha.
As pedras estorvavam-lhe os caminhos por onde andava, pisá-las, nunca, arredá-las, ora nunca, indignava-se. A cor do céu indignava-o, o azul indignava, o cinzento entristecia, o vermelho não satisfazia, ora raio, o céu em si mesmo é inútil.

Tudo te enerva homem? Perguntavam as mulheres que por ali passeavam. É, devo ter nascido defeituoso, ou isso ou é o mundo que não satisfaz, acho mais plausível a hipótese de que o mundo não satisfaz.

Não pensemos que ele dizia isto calmamente e em introspeção, ele resmungava isto, e só para si, não o dava a ninguém. E depois cuspia para o chão, como se o ato de cuspir o ilibasse, isentasse de dar explicações a alguém, muito menos a quem ele não as devia. Aliás, ele não devia explicações a ninguém porque ninguém era digno de se deslumbrar com as besteiras, besteiras belas e razoáveis, que debitava continuamente.

Ninguém que ele conhecesse sabia como levar a vida, e a vida não sabia como ser levada. Pudesse ele tomar as rédeas das coisas, fosse ele um deus qualquer, e tudo seria diferente. Mas não, era apenas alguém muito indignado com a falibilidade da vida.

Ao que parece, no outro dia viu um abraço colorido e demorado, como se os que se abraçavam não compreendessem a futilidade daquele envolvimento. Sentiu-lhes pena. Ele? Ora ele nunca tinha dado abraços, nunca os tinha recebido, quanto mais alguma vez dá-los, isso é que não.